quarta-feira, 3 de março de 2010

Para quem quer ser "cuidado"


Como terapeutas estamos sempre em busca de auxilio ao outro, procurando muitas vezes auxiliar de maneiras não tão claras para nossos pacientes, pois o processo de cura que cada um se propõem (os pacientes) é específico daquela pessoa.

Muitas vezes nos deparamos com situações de extrema rigidez fisica, de bloqueios emocionais, de problemas que aparentam não ter solução; contudo o desafio de auxiliar o próximo nesta árdua caminhada muitas vezes aparenta ser dissonante com o problema. Mas o principal de um atendimento terapêutico deve ser pautado pelo cuidado com que o terapeuta leva o processo todo, a todo instante.

Se você sente que seu terapeuta o conduz com cuidado, então pode confiar nesse profissional que está a sua frente. Mas, o que você deve considerar como cuidado?

Acredito sinceramente que fábulas e estórias sempre ilustram muito bem o caminho das pedras. Muitas vezes a sua concepção de um termo como o “cuidado” que estou me referindo não condiz com o ideal deste termo filosoficamente ou eticamente falando. Assim do livro de Leonardo Boff, “Saber Cuidar” retiro o conto de “Cuidado” que foi escrita por Higino, um escravo romano que conseguiu sua liberdade. É uma transcrição de uma fábula que remonta a tempos imemoriais.


Fábula-mito do Cuidado


Certo dia, ao atravessar um rio, Cuidado viu um pedaço de barro. Logo teve uma idéia inspirada. Tomou um pouco do barro e começou a dar-lhe forma. Enquanto contemplava o que havia feito, apareceu Júpiter.

Cuidado pediu-lhe que soprasse espírito nele, o que Júpiter fez de bom grado. Quando porém, Cuidado quis dar um nome à criatura que havia moldado, Júpiter o proibiu. Exigiu que fosse imposto o seu nome.

Enquanto Júpiter e Cuidado discutiam, surgiu, de repente, a Terra. Quis também ela conferir o seu nome à criatura, pois fora feita de barro, material do corpo da Terra. Originou-se então uma discussão generalizada.

De comum acordo pediram a Saturno que funcionasse como árbitro. Este tomou a seguinte decisão que pareceu justa:

“Você, Júpiter, deu-lhe o espírito; receberá, pois, de volta este espírito por ocasião da morte dessa criatura.

Você, Terra, deu-lhe o corpo; receberá, portanto, também de volta o seu corpo quando essa criatura morrer.

Mas como você, Cuidado, foi quem, por primeiro, moldou a criatura, ficará sob seus cuidados enquanto ela viver.

“E uma vez que entre vocês, há acalorada discussão acerca do nome decido eu: esta criatura será chamada Homem, isto é, feita de húmus, que significa terra fértil”.


Assim, dentro deste processo nem sempre os elementos que se apresentam aparentam ter relação direta com o foco principal, mas são peças chave para o caminho de solução. E não podem ser ignoradas pois fazem parte do problema, e somente pode-se chegar a cura passando por cada um dos seus meandros.

E se gostou dos termos míticos usados, saiba que o seu terapeuta nada mais é do que o arauto, aquele que conduz ao objetivo estipulado por você, meu caro leitor...

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